terça-feira, 2 de outubro de 2007

Alienação

«Eu não quero que você compre este produto porque eu estou dizendo que é bom. Quero que compre porque está convencido de que tem necessidade. Nada mais...»
«Mas, eu não tenho necessidade de tê-lo, e de qualquer forma, também não tenho possibilidade de comprar, meu amigo...»
«Quanto a isto não tenhas problemas. Dou facilidade para o pagamento e você não vai sentir dificuldades em obter o produto que tanto lhe faz falta!»
«Mas eu mesmo assim não quero. Tenho outras coisas mais importantes para pagar e não quero entrar em despesas desnecessárias... E...»
«Não te aborreças comigo, mas tenho que repetir que este produto fará bem a sua saúde e no futuro irá me agradecer por ter aparecido na sua vida mesmo a tempo.»
«Não, obrigado. Aliás, também agradeço o seu interesse pela minha saúde, mas também não querendo ser muito aborrecido, prefiro não comprar o seu produto, prefiro não me meter em novas despesas e também prefiro continuar a ser seu amigo...»
«Como podes fazer isto comigo? Você não sabe que a minha vida financeira está um caos? Eu estou tentando te vender o meu produto e você vem falar de amizade quando não me está ajudando em nada??... Francamente»
«Agora você é que está a confudir as coisas. Sou seu amigo, mas não sou o seu cliente. Devias procurar um cliente e deixar desta conversa comigo!»
«Você não sabe o que diz e eu já não quero ser seu amigo. Estou farto de andar por estas ruas e bater de porta em porta e ninguém me dá atenção... Nem você, que se diz meu amigo...»
«Olhe... O que está acontecendo, é que você já está um bocado alienado com o seu negócio e depositou toda a sua crença nele. Como já não consegue ver mais nenhuma saída para o seu problema, pensa que a única solucão será vendendo este produto caríssimo e que não encaixa na bolsa familiar de ninguém... Estás realmente se tornando um chato!»
«...»
«Pronto... Desculpe-me, mas tinha que falar.»
«...»
«Vá lá... Esqueça tudo isto. Relaxe. Deixe de me ver como um potencial cliente e vamos beber um copo de cerveja enquanto mudamos de assunto. Lembra-se quando nos reuníamos no sábado a noite com Carlitos, Zé da Jaca e Manezinho? Lembra da cara que a mãe do Zé fazia quando a gente chegava para buscá-lo? E a Clotilde?...»
«Lembro, pois... Bons tempos! Nunca pensamos que algum dia tivéssemos que nos preocupar com ganhar dinheiro... Que saudade que me dá desta altura da vida, meu amigo!!...»

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